Centenário do naufrágio do 'Príncipe de Astúrias'

Na madrugada de 5 de março de 1916, durante viagem de Barcelona a Buenos Aires, o transatlântico espanhol ‘Príncipe de Astúrias’ navegava rumo à escala no porto de Santos, quando chocou-se contra as rochas submersas da Ponta de Pirabura, em Ilhabela, litoral norte de São Paulo, arrastando para o fundo do mar revolto 477 passageiros e tripulantes.

No centenário do maior naufrágio da costa brasileira, Diário de Bordo relembra a trágica história que enlutou a marinha mercante espanhola.



O 'Príncipe de Astúrias'



Um navio moderno e luxuoso

O ‘Príncipe de Astúrias’ era um paquete a vapor de uma chaminé, construído nos estaleiros Russel & Co., em Glasgow, Escócia, sendo seus armadores a companhia de navegação Pinillos y Isquierdo, uma das maiores da Espanha.

Com registro no porto de Cádiz, foi lançado ao mar em 30 de abril de 1914, realizando sua viagem inaugural em 16 de agosto do mesmo ano, num período crítico para a Europa e o mundo, em virtude da eclosão da Primeira Grande Guerra.

Ao lado de seu irmão mais velho, o paquete ‘Infanta Isabel’, lançado em 1912, o ‘Príncipe de Astúrias’ representava o mais moderno e luxuoso transatlântico da frota espanhola. Com deslocamento de 16.500 toneladas, media 150 metros de comprimento, 19,1 de boca e 9,6 de calado, alcançando em média 18 nós de velocidade (33km/h) e, quando carregado, 15 nós (27 km/h). Sua tripulação comportava em torno de 200 homens e a capacidade total de passageiros girava em torno de 1890 pessoas.

Concebida segundo técnicas avançadas de engenharia naval, a embarcação possuía casco duplo em toda a sua extensão, além de compartimentos estanques e de lastro, os quais podiam ser cheios ou esvaziados facilmente, garantindo uma maior estabilidade em qualquer eventualidade.



A imponente escadaria do vapor espanhol


Biblioteca, salão de música, tapetes persas e vitrais coloridos

O ‘Príncipe de Astúrias’ alojava confortavelmente cento e cinquenta passageiros na primeira classe, cento e vinte na segunda e cento e vinte na terceira, esta última, a classe econômica. Debaixo da primeira coberta situavam-se os alojamentos dos emigrantes, que acomodavam mil e quinhentas pessoas.

A coberta superior abrigava o setor de luxo da primeira classe, o qual dispunha de salão de música, biblioteca e espaço para fumantes. Todas as cabinas estavam cuidadosamente decoradas e dotadas de portinholas, assegurando aos viajantes a entrada de luz direta, boa ventilação e uma bela vista para o oceano. Além disso, encontravam-se equipadas com luz elétrica, ventiladores e comunicação com o serviço de bordo.

O salão de música localizava-se sobre o refeitório da primeira classe e seu acesso se dava pelo hall de entrada, onde havia uma majestosa escadaria, com as laterais e os corrimões esculpidos em madeira. Seus móveis, de mogno ou cedro, em tom avermelhado, estavam estofados com cores claras. O piso, ricamente decorado com tapetes persas, era utilizado como pista de dança, destacando-se ao lado um magnífico piano. Os tabiques exibiam painéis com tapeçaria de seda, adornada com bordados de delicados matizes.



Por 5000 pesetas, o passageiro desfrutava do camarote de luxo

O salão de música

Em uma área anexa, mais próxima à proa, ficava a biblioteca, decorada ao estilo Luís XVI. Sua sala de leitura contava com grande número de romances para o desfrute dos passageiros. Do outro lado da escada principal, no sentido dos camarotes, achavam-se os quartos de banhos, separados para homens e mulheres, também equipados com ventiladores.

Seguindo em direção à proa chegava-se a uma galeria, que servia de espaço de recreio, com diversos assentos e vitrais coloridos que protegiam do vento. Constituindo um agradável ambiente para breves passeios, era por essa razão chamada de ‘coberta de passeio’.

Mobiliado com poltronas e sofás estofados em couro fino, tingido em várias cores, o espaço reservado aos fumantes possuía bar e lavabo. Depois do almoço, os passageiros podiam ali fumar um charuto ou saborear um licor francês.

Na cobertura principal havia os demais camarotes da primeira classe, bem como, a luxuosa sala de jantar, com acomodações amplas e suficientes para o número de passageiros que acolhia. Painéis de carvalho japonês e quadros com moldura de nogueira embelezavam o recinto, o qual recebia a luz do dia através de uma cúpula adornada por vitrais coloridos.



A biblioteca

O refeitório da primeira classe

A última viagem

A trágica viagem que selou o destino do famoso paquete espanhol e de centenas de seus passageiros teve início em 17 de fevereiro de 1916, quando zarpou do porto de Barcelona, rumo a Buenos Aires. Na manhã do dia seguinte, realizou sua primeira escala na cidade de Valência e, ao sábado, dia 19, ancorou no porto de Almeria. Na madrugada de domingo, passou defronte ao Cabo Trafalgar e, na segunda, aportou em Cádiz. A última escala verificou-se na quarta-feira, dia 23, quando arribou ao porto de Las Palmas, na Grã Canária, uma das principais ilhas do arquipélago das Canárias, local procurado por muitos navios para uma derradeira parada antes da travessia do Atlântico.

Capitaneava o ‘Príncipe de Astúrias’ o comandante José Lotina Abrisqueta, experiente homem do mar, de 44 anos de idade, que há 15 anos trabalhava para a Companhia Pinillos y Isquierdo.



José Lotina, o capitão do 'Príncipe de Astúrias', que pereceu no naufrágio



Controvérsias sobre o número de passageiros

Dados oficiais sobre o número de passageiros e tripulantes do transatlântico espanhol em sua última viagem são desconhecidos. Entretanto, informações colhidas pela imprensa à época do desastre oscilam entre 600 a 700 pessoas, revelando ainda a identidade de 411 delas. A maioria dos passageiros tinha nacionalidade espanhola e argentina, mas havia também cidadãos americanos, peruanos e chilenos.

A bordo do ‘Príncipe de Astúrias’ viajavam alguns passageiros ilustres, tais como o escritor Juan Mas Y Pi, o industrial Francisco Chiquirrín, o diplomata Carl Friederick Deichman, o eminente jurista argentino Pedro Nolasco Arias e o empresário Luís Descotte Jourdan, avô do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984), falecido no naufrágio.




Estátuas monumentais, libras em ouro e automóvel Renault

Discussões sobre a carga transportada pelo navio também perduram até os dias atuais. Algumas fontes indicam que no cofre forte, além das joias e pertences dos passageiros, guardavam-se 40.000 libras em ouro, destinadas à agência de um banco inglês de Buenos Aires. Fala-se ainda da existência nos porões da embarcação soçobrada de um automóvel Renault, modelo 35 HP.

Contudo, a carga mais importante do ‘Príncipe de Astúrias’ eram as cerca de 20 estátuas de mármore e bronze destinadas ao ‘Monumento de los Españoles’, então em construção no Parque Palermo, de Buenos Aires, com destaque para uma imponente estátua equestre do general José de San Martín, herói da independência argentina. Obra de invulgar valor artístico, o monumento constituía um presente da comunidade espanhola residente na Argentina ao país que a acolhera, em comemoração ao centenário de sua independência, conquistada em 1810. Concebido como projeto em 1908, o monumento deveria ser entregue em 1910, porém, uma série de contratempos (dentre os quais se inclui o naufrágio do vapor espanhol) atrasou sua inauguração para o ano de 1926, com o uso de réplicas das obras perdidas. Quanto às estátuas originais, algumas foram resgatadas em 1991, encontrando-se atualmente no Rio de Janeiro.

Além das obras artísticas, cumpre mencionar ainda um vultoso carregamento de barras de estanho e chumbo, com peso de 60 kg cada, resgatadas nos últimos anos em grande quantidade por equipes de mergulhadores.



O ‘Monumento de los Españoles', na interseção da avenida del Libertador com a avenida General Sarmiento, em Buenos Aires.



O desastre em Ilhabela

Na madrugada de 5 de março de 1916, o ‘Príncipe de Astúrias’ encontrava-se na ilha de São Sebastião, município de Ilhabela, navegando a caminho do porto de Santos sob condições climatológicas completamente adversas. Era uma noite cerrada de nevoeiro, com chuva, mar encrespado e fortes ventos de sudoeste. Tais fatores, aliados às fortes correntes, desviaram o navio de seu curso, aproximando-o a escassas milhas da costa. Percebendo tardiamente a proximidade da terra, a tripulação não teve tempo para reagir. Às 4: 15 da manhã, o vapor colidiu contra os recifes da Ponta de Pirabura, que abriram seu casco na altura da casa de máquinas. A invasão das águas nas caldeiras provocou três minutos após o choque uma estrondosa explosão, a qual cortou o fornecimento elétrico, impedindo que o radiotelegrafista Francisco Cotanda enviasse pedidos de socorro. Às 4: 20, uma segunda explosão levou a embarcação a pique. Toda a catástrofe ocorreu em exíguos 5 minutos.



O Naufrágio do 'Príncipe de Astúrias', óleo sobre tela, de Carlos Alfredo Hablitzel (1919-1988), em exposição no Museu Marítimo de Santos. Pintura produzida em 1977.



A luta pela vida e as operações de salvamento

Os passageiros e tripulantes que não foram levados para o fundo do mar com o transatlântico tiveram de lutar contra as ondas bravias, tentando nadar até a costeira. Estima-se que entre 200 e 300 pessoas morreram atiradas contra as rochas de Pirabura ou simplesmente afogadas. O comerciante Buenaventura Rosés logrou se salvar em um bote que achara à deriva, passando então a recolher outros náufragos, tais como o timoneiro Antônio Linares e demais membros da tripulação, como o médico de bordo Francisco Zapata. Contando com apenas este bote, além de grande esforço e heroicidade, conseguiram resgatar das águas uma centena de sobreviventes, desembarcando-os na praia mais próxima.

Somente ao meio-dia, o cargueiro francês ‘Vega’, da Société Générale de Transports Maritimes, procedente de Salvador, Bahia, descobriu os restos do naufrágio, resgatando os últimos sobreviventes e comunicando o terrível sinistro marítimo.

No dia seguinte, o transatlântico espanhol ‘Patricio de Satrústegui’, vindo do Rio de Janeiro após receber aviso da perda do paquete compatriota, acudiu à área de seu afundamento para salvar mais náufragos. Infortunadamente, tudo o que encontrou foi apenas 6 cadáveres.


O vapor 'Patricio de Satrustegui', da Companhia Transatlântica Espanhola, atracado no porto de Cádiz.




O ‘Titanic’ espanhol

Ao lado do naufrágio do vapor ‘Valbanera’, a perda do ‘Príncipe de Astúrias’ é considerada a maior tragédia da marinha mercante espanhola e a maior do Atlântico Sul.

Nos últimos anos, muitos pesquisadores têm apontado algumas semelhanças entre o paquete espanhol e o mais famoso naufrágio da História, o do ‘RMS Titanic’, ocorrido no Atlântico Norte.

Ambos os navios eram transatlânticos de luxo, praticamente contemporâneos (o ‘Astúrias’ foi lançado apenas dois anos depois do naufrágio do ‘Titanic’) e com pouco tempo de serviço, perdendo-se o britânico em sua viagem inaugural e o espanhol em sua sexta viagem.

Do mesmo modo, nos dois casos verificaram-se elevadas perdas humanas, representando as mortes do ‘Príncipe de Astúrias’ cerca de 1/3 do número de vítimas fatais do ‘Titanic’, levando-se em conta as informações divulgadas à época.

Também recentemente, alguns estudiosos defendem a tese de que o número de passageiros a bordo do vapor espanhol era muito superior ao divulgado pelos jornais da época, porquanto em seus porões viajavam centenas de imigrantes clandestinos, fugidos da Grande Guerra. Neste sentido, calculam que os mortos poderiam chegar a mais de 1000 pessoas. Apesar da plausibilidade da hipótese, nenhum documento até o presente momento a comprova, permanecendo como mais aceitável o saldo já em si trágico de quase 500 vítimas fatais.



A tragédia do 'Príncipe de Astúrias' foi manchete do jornal A Tribuna, de Santos, em 07/03/1916


Sobreviventes do naufrágio do 'Príncipe de Astúrias', fotografados para uma revista argentina. Os náufragos foram desembarcados no porto de Santos.


Homenagens

Em 5 de março de 2016, nos cem anos do naufrágio do ´Príncipe de Astúrias’, a Prefeitura de Ilhabela e a Marinha do Brasil realizaram uma cerimônia de homenagem às vítimas do sinistro, lançando coroas de flores na Ponta de Pirabura.

Na oportunidade, além de autoridades civis e militares, estiveram presentes parentes de sobreviventes do desastre, como o ator Herson Capri, neto de uma sobrevivente, e o espanhol Isidor Prenafeta Siles, neto de um tripulante também sobrevivente. Recentemente, Isidor lançou na Espanha o livro ‘El Misterio del Príncipe de Astúrias – El Titanic Español’.

Como parte do evento, foi lançado o livro ‘Ilha bela - Príncipe de Astúrias – Um Mistério entre Dois Continentes’, de autoria de Jeannis Michail Platon, mergulhador profissional que dedicou duas décadas de sua vida às expedições nos destroços do navio.

No Museu Náutico de Ilhabela e no Museu Marítimo de Santos, objetos autênticos resgatados por mergulhadores no ‘Príncipe de Astúrias’ encontram-se em exposição pública, contribuindo para a divulgação e preservação da história do maior naufrágio da costa brasileira, o qual ainda encerra muitos segredos nas águas profundas da Ponta de Pirabura.



Objetos resgatados no 'Príncipe de Astúrias', do acervo do Museu Marítimo



Fontes:

https://es.wikipedia.org/wiki/Vapor_Pr%C3%ADncipe_de_Asturias

http://vidamaritima.com/2008/02/principe-de-asturias/

http://vidamaritima.com/2007/05/los-vapores-patricio-de-satrustegui-y-leon-xiii/

http://www.planetasapiens.com/?p=3112

http://www.portalr3.com.br/2016/03/ilhabela-lembra-os-100-anos-do-naufragio-do-principe-de-asturias/#.VuIPNenSmUk

Leituras indicadas:

Silvares, José Carlos; Heinde Aranha Moura, RLuis Felipe. Príncipe de Astúrias: O Mistério das Profundezas. Magma Editora Cultural, 2006.

García Novell, Francisco. Naufragio, la historia olvidada del Titanic español. Madrid: La esfera de los libros, 2009.

Siles, Isidor Prenafeta. El mistério del Príncipe de Asturias, El ‘Titanic’ español. Editorial Noray, 2012.

Platon, Jeannis Michail. Ilha bela - Príncipe de Astúrias: Um mistério entre dois continentes.

#Naufrágios

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