Os Argonautas

Durante a Idade Antiga, por muitos séculos os europeus acreditaram que ao leste o mundo acabava no sombrio mar Negro.

Contudo, quem foram os navegadores que desafiaram os limites deste conhecimento?

De acordo com Apolônio de Rodes, poeta grego do século III A.C., autor da obra épica “A Argonáutica”, a proeza coube aos argonautas, os célebres tripulantes da nau Argo. Liderados pelo herói Jasão, eles partiram de Iolco, atual Vólos, na Grécia, em busca do mágico Velocino de Ouro, em Cólquida, no Cáucaso, atual República da Geórgia, empreendendo a primeira grande aventura marítima da história ocidental.

Na estreia do tópico ‘Lendas e Mitos Náuticos’, explore em Diário de Bordo uma das mais famosas sagas da mitologia grega.




Os argonautas. Cerâmica de figura vermelha da Ática, 460-450 a.C. Acervo do Louvre.



Jasão e o Velocino de Ouro

Segundo a lenda, Pélias, rei de Iolco, um descendente de Poseidon, deus dos mares, usurpara o trono do seu meio-irmão Éson, pai de Jasão. Enviado pelo novo rei para o topo do monte Pélion, Jasão fora criado por Quíron, um sábio centauro. Logo que adulto, porém, decidiu descer até Iolco com o objetivo de reclamar publicamente seus direitos ao trono.

No encontro com Jasão, Pélias prometera-lhe o trono caso o jovem comprovasse sua capacidade e navegasse “até o fim do mundo” para recuperar o Velocino de Ouro do carneiro alado, em cuja garupa Frixo e Hele, filhos do rei, tinham fugido da ira de sua madrasta. Hele caíra do carneiro entre a Europa e a Ásia, batizando o Helesponto. Todavia, seu irmão continuara o voo até a Cólquida, região ao sul do Cáucaso e a leste do mar Negro, na atual Geórgia, considerada então o fim do mundo, justamente aonde Frixo deixara o velocino, no alto de um grande carvalho.

Oriundo da Tessália, belo e de origem aristocrática, Jasão aceitara o desafio. Carente de habilidades, entretanto, compensava a limitação ao demonstrar elevado tino para escolher para a missão homens que possuíam as virtudes que lhe faltavam.



Frixo e o Carneiro de Ouro. Vaso do século V a.C. Museu Nacional de Arqueologia, Atenas.

A heroica tripulação da nau Argo

Do grego, “Argonáutica” significa “os nautas (os navegadores) do navio Argo”. O nome da embarcação era uma referência a Argos, o engenheiro que a construíra a mando de Jasão.

Dentre os heroicos tripulantes recrutados pelo líder da expedição estavam Orfeu (mago musical, filho de Apolo e da Musa Calíope) e Tífis, o grande piloto, apoiado por Zetes e Cálais, os filhos alados de Bóreas, o vento do norte. Depois vieram os adivinhos Mopso e Ídmon, aos quais se somaram dois pugilistas, os gêmeos Pólux e Castor. Seguiram-se então Linceu, o de olhos de lince, juntamente com Idas, seu irmão louco, o qual via a realidade além das aparências e falava a verdade sem medo. À meia-nau remava Anceu, o gigante que conhecia as estrelas, bem como, Hércules, o super-herói, que carregava uma pesada clava, coberto por sua pele de leão e servido pelo seu formoso e jovem pajem, Hilas. Finalmente, Peleu, o aventureiro, completava a lista de 50 homens.

Segundo os cálculos do padre e apologista cristão Jerônimo de Estridão (347-420), a viagem dos Argonautas teria ocorrido por volta do ano 1270 A.C. Já o célebre físico inglês Isaac Newton (1643-1727) estimou seu início no ano de 939 A.C.

O 'Argo', por Konstantinos Volanakis (1837-1907)

A partida

Concluído os preparativos, Jasão e sua tripulação ofereceram o comando da nau a Hércules, que recusou. Após os protestos da carranca falante do ‘Argo’, um presente de Atena, Jasão determinou a descida do navio sobre os roletes, da praia até ao mar.

Quando a lira de Orfeu ditava o ritmo das remadas e o ‘Argo’ deslizou através das névoas da manhã, atravessando o golfo adormecido de Pegasae e saindo para o mar, o pranto das mulheres ouviu-se por toda Iolco.

Nos tempos atuais, uma partitura musical cuneiforme da canção de Orfeu, datada próxima à época dos Argonautas, foi encontrada em Ugarit, na Síria. Interpretada ao som da lira, soou de uma maneira perfeitamente adequada para regular o ritmo de 50 remadores de longa distância!

Depois de zarparem, os Argonautas fixaram o mastro na carlinga e içaram a vela, aproveitando o Noto, o vento do sul. Circundando o escuro cabo Sepias para o leste e deixando a ilha de Skiatos, a boreste, seguiram para norte, subindo a magnífica costa da Magnésia. Ao passarem sob o monte Pélion, o centauro Quíron galopou até a praia, ao lado de sua esposa Caricló, que carregava ao colo o bebê Aquiles, o futuro herói da guerra de Tróia, para que pudesse ver a bordo do ‘Argo’ seu pai, Peleu. Tudo isso ocorreu em Milopotamos, em Tsangarada.




Quíron e Aquiles. Afresco, 127 x 125 cm, Herculano, Itália. Museu Arqueológico Nacional, Nápoles.

Rumo a Cólquida

No terceiro dia de viagem, após uma parada no porto de Anfetas por falta de vento, local onde passaram dois dias banqueteando e sacrificando aos deuses, os Argonautas voltaram a aproveitar o Noto, navegando pela Melibéia (hoje Melivia) e passando sob o monte Ossa, com seus dois mil metros de altitude, em cujos flancos os antigos Titãs tentaram empilhar o monte Pélion, em desafio aos deuses olímpicos. À tarde, estavam de través defronte ao Olimpo, com seu topo nevado de três mil metros de altitude. Ao cair da noite, cruzaram o golfo de Thermaikos e alcançaram rapidamente a península Pallene. Atingindo a segunda península Calcídica, Sythonia, o ‘Argo’ foi iluminado pelo amanhecer quando se encontrava sob o monte Átos, de dois mil metros de altitude, na cabeça da terceira península.

No contorno do cabo das Ninfas, onde a frota do rei persa Dario naufragaria, durante as Guerras Médicas, os Argonautas remaram em direção ao monte Skopia, com 500 metros de altitude. Alcançando a ilha de Lemnos, terra natal de Eros, filho de Afrodite e deus do amor, fundearam na acolhedora Myrina, confortando em seus braços as mulheres locais. De mau humor, Hércules ficara na praia com alguns poucos ajudantes, reprovando a atitude de seus companheiros namoradores: “Já que sua ideia de glória é repovoar Lemnos, deixemos Jasão aqui e continuemos navegando”. Pressionado, Jasão fora forçado a levantar âncora. Com o tempo, a rainha Hipsípile daria à luz Euneu, filho de Jasão, que reinava sobre Lemnos quando a expedição de Agamenon a Tróia passou navegando por lá.

De Lemnos, os Argonautas remaram até a Samotrácia, aportando na baía de Paliópolis, atualmente assoreada. Mais um dia inteiro de remada trouxe o ‘Argo’ a Quersoneso, “com as costas da Trácia para a esquerda, mas deixando a ilha de Imbros para a direita”, conforme a descrição de Apolônio de Rodes sobre a rota mais segura. À noite, a embarcação entrou no descampado Helesponto, o estreito que liga o mar Egeu ao mar de Mármara, percorrendo a costa da Roentia e passando por Ida, Dardania, Ábidos, Percote e Pitéia.

Hércules, o mais célebre dos heróis da mitologia grega, famoso pelos Doze Trabalhos, participou de parte da expedição dos Argonautas, na qual parece ter enfrentado desavenças com Jasão. Detalhe da cerâmica de figura vermelha da Ática, 460-450 a.C. Acervo do Louvre.

Combate com os dolíones e abandono de Hércules

Na manhã seguinte, os Argonautas entraram no mar de Mármara, velejaram pela boca do rio Aesepus (hoje Gönen, na Turquia), ancorando no istmo de Artake, na atual Erdek. Após prestarem seus respeitos ao rei Cízico, tiveram uma boa noite de descanso e, ao alvorecer, conduziram o ‘Argo’ ao redor da península até Chitus, também chamada de Pandermos, “o porto aconchegante”, segundo Apolônio. Na cidade turca de Bandirma, o nome significa “envolto em peles”, exatamente como os Argonautas dormiam nas praias, completa o poeta.

Aliados do rei Cízico e seus dolíones (povo que habitava uma ilha próxima da Frígia, na Ásia Menor), após massacrarem os selvagens monstruosos que periodicamente desciam da montanha, os Argonautas continuaram sua viagem. Todavia, quando uma mudança no vento os forçou a voltar para Artake no escuro, os dolíones pensaram tratar-se de uma invasão e no conflito resultante Cízico perdera a vida. Ao receber a notícia, Clite, a jovem rainha, se enforcara. Após providenciar um enterro ao rei com todas as honras, Jasão permaneceu em Artake por mais 12 dias, tempo suficiente para Tífis, o timoneiro, trocar a âncora de pedra do ‘Argo’ por uma mais pesada.

Quando Mopso viu um falcão pousar no cadaste de popa, os Argonautas se despediram com uma grande festa sacrificial na montanha e afastaram-se remando para o leste. Na altura do rio Rhyndacus, entretanto, os remadores começaram a ficar cansados. Somente Hércules remava cada vez com mais força, a ponto de quebrar seu remo. Ao entardecer, o ‘Argo’ entrara na enseada de Cio, atual Gemlik, onde as altas montanhas mencionadas por Apolônio dominam Iznik, a antiga Nicéia. Enquanto a tripulação era recebida com festa pelos mísios, Hércules procurava madeira para talhar um novo remo. Hilas, seu belo escudeiro, saíra perambulando por um riacho, mas acabara raptado por uma ninfa. Hércules se recusou a levantar âncoras sem ele e, depois de uma longa espera e muita discussão, Jasão decidiu deixa-lo para trás. No final, o super-herói seguiu rumo às suas próprias provações, presumivelmente com Hilas.

Hilas e as Ninfas, de John William Waterhouse (1896)

Massacre dos bébrices e combate com as Harpias

Contornando o cabo Poseidon (hoje Boz Burnu), os Argonautas fundearam na atual Gebze. O rei Âmico e seus bébrices os receberam com um desafio: ninguém poderia partir até que um dos membros da tripulação tivesse derrotado o robusto rei numa luta a socos. Jasão confiara a tarefa ao taciturno Pólux, que partiu o crânio de Âmico com um violento golpe e, posteriormente, arrependido, vagou pela noite para não mais voltar. Os demais Argonautas, porém, tranquilos com sua consciência, massacraram os bébrices e espalharam seus corpos “como troncos” pela praia.

No dia seguinte, o ‘Argo’ entrou no Bósforo, o estreito que liga o mar de Mármara ao mar Negro. Graças a Tífis, resistiu com êxito às súbitas ondas que ainda surpreendem essas águas. Em virtude de um forte vento norte, a tripulação buscou abrigo no porto de Fineu, o profeta condenado pelos deuses a uma existência cega, faminta e fétida porque havia previsto o futuro com extrema clareza. Procurado por Jasão para fornecer instruções sobre a melhor rota para Cólquida, Fineu condicionara sua ajuda sob uma condição: os Argonautas tinham que livrá-lo das fedorentas Harpias, que a cada refeição desciam voando para arrebatar a comida de sua boca. Atendendo ao pedido, Jasão preparara um grande banquete e, assim que as batidas das asas das Harpias foram ouvidas, Zetes e Cálais, os filhos de Bóreas, alçaram voo. Abatidas numa ilha distante, as Harpias tiveram suas vidas poupadas apenas “porque eram os cães de caça de Zeus”. Fineu cumpriu então o acordo e, limpo e alimentado, alertou Jasão sobre as Simplégades, rochas flutuantes que se fechavam como mandíbulas sobre qualquer um que ousasse passar através do ponto mais apertado do estreito. Aconselhou ainda a levar uma pomba na frente, de modo que as rochas se entrechocassem e se afastassem de novo logo antes de o ‘Argo’ passar, e que em seguida remassem como loucos no topo da onda que se formaria antes que as rochas se fechassem mais uma vez. Mais do que isso Fineu não dissera, porquanto aprendera de maneira dura como os deuses puniam os que invadiam seu terreno no conhecimento perfeito do futuro.



Fineu é libertado das Harpias por Cálais e Zétes, de Bernard Picart (1673-1733)



Através do mar Negro

A pomba perdera as penas da cauda e o ‘Argo’ o cadaste da popa, mas os Argonautas conseguiram passar pelas rochas, contornando o “cabo Negro” de Apolônio (hoje Kara Burnu, com igual significado em turco) e adentrando no mar Negro. Frequentemente, um vento norte sai galopando das estepes ilimitadas e transforma a nuvem fina num manto negro que cobre a superfície do mar, daí seu nome. Para os Argonautas, era um mar desconhecido, talvez até mesmo um golfo do Oceano Infinito.

Ao avistar o mar Negro, Jasão hesitou, mas Tífis o encorajou, e com o vento norte de través a bombordo e os estranhos picos de Colone (hoje Alam e Chatal Dag) para o sul, eles passaram os rios Rehebas, atual Riva, e Fílis, que fluem para o mar em Agva. Mas até mesmo o corajoso Tífis ficou tentado a voltar quando a ilha de Tínias foi avistada, pois ela estava encimada por uma gigantesca aparição de Apolo. Trata-se certamente da ilha de Kefken.

No dia seguinte, foram deixados para trás os rios Calpe, que conserva o nome, e o Sangarius (hoje Sakarya), e quando o ‘Argo’ alcançou a boca do rio Lico (atual Karasakar), o vento se acalmou e os Argonautas remaram para a praia sob o “alto Cabo Aquerusias, onde o rio Aqueron flui saindo da Caverna de Hades, onde nunca reina o silêncio, próximo a recifes planos de pedra que mal eram molhados pelas ondas”, observa Apolônio de Rodes. Aqui, o rei Lico, o lobo, recebeu com gratidão os Argonautas que o tinham livrado do seu inimigo Âmico, o pugilista, e lhes ofereceu seu filho como guia.

Mas Hades, o deus do mundo inferior e dos mortos, reclamou seu direito divino: Ídmon, o adivinho, foi morto por um porco selvagem, e Tífis, seu incomparável timoneiro, morreu de uma febre.

As lamentações de Jasão foram ouvidas e o jovem Anceu, filho do deus dos mares, tornou-se o novo timoneiro do ‘Argo’. Seu conhecimento se provaria indispensável para o retorno dos Argonautas. Depois de navegar pelas “férteis terras dos Mariandini”, conforme Apolônio, os Argonautas visitaram o túmulo de Stenelus, camarada de Hércules, cujo fantasma os deslumbrara, na pedra alta que marca a entrada do porto murado de Amasra, antiga Sesamus. Então, o “Argo” continuou navegando para o Cabo Carambis “numa noite e um dia”, o equivalente a 10 milhas náuticas em 24 horas, a uma velocidade logo acima de 4 nós. Deixando Carambis ao amanhecer, alcançou o cabo Sinope, uma península alta muito parecida com a Rocha de Gibraltar, onde descansaram por 12 dias, recebendo os sobreviventes da expedição de Hércules.

De Sinope, os Argonautas passaram pelo rio Halys (hoje Kizil Irmak) e, depois, pelo rio Íris (atual Yesil Irmak), o “rio verde” que corre para o mar no cabo Chiva. Apolônio os chama de “os deltas férteis dos assírios”. Os deltas dos dois rios ainda são as melhores terras para a plantação de arroz em toda esta costa.

Os desentendimentos provenientes do desembarque na ilha de Lemnos levaram Jasão a passar direto pela “terra das Amazonas, irrigada pelas 100 bocas do rio Termodonte”, consoante Apolônio. Sem desperdiçar tempo, a nau atingiu a terra dos Calibes, cujos habitantes passavam os dias cavando e forjando ferro, cercados de fuligem, chamas e fumaça negra, um provável primeiro encontro do Ocidente com o ferro. A seguir, o “Argo” circundou o cabo de Zeus (possivelmente o atual Yasun Burnu ou Cabo de Jasão), com seus flancos verdejantes cobertos de folhagens úmidas a envolvê-lo em mistério.

Quando a ilha de Ares, o deus da guerra, foi avistada, um esquadrão de pássaros de guerra desfechou um ataque e os Argonautas tiveram que cobrir o “Argo” com seus escudos. Finalmente, eles espantaram os pássaros batendo nos escudos com as espadas e agitando os capacetes de plumas no ar.

Fineu tinha dito a Jasão para que passasse um tempo na inóspita ilha de Ares para uma surpresa agradável. Ele estava certo. Os descendentes de Frixo, que voara para Cólquida no Velocino de Ouro, haviam naufragado ali enquanto fugiam de Eetes, rei da Cólquida. Depois de um pouco de persuasão, Argeu, o mais velho, concordou em se juntar ao “Argo” e guiar a nau até a terra do Velocino de Ouro.

Com o vento em sua vela, o “Argo” passou por uma costa onde, diz Apolônio, os selvagens faziam amor ao ar livre e cuidavam muito do pai enquanto a mãe dava à luz, relato semelhante ao de Américo Vespúcio sobre os indígenas americanos, no início do século XVI.

Apolônio continua dizendo que num dia e numa noite, os Argonautas chegaram à caverna onde Crono fizera amor com a ninfa Filira e, pego em flagrante por sua esposa Réia, fugira na forma de garanhão, deixando Filira para dar à luz Quíron, o tutor de Jasão, meio deus, meio garanhão.

Depois de deixar a caverna de Filira, o “Argo” percorreu uma costa habitada por muitas raças, chegando à terra agreste dos Lazes, povo pré-helênico de dialeto turco-georgiano. A viagem de ida estava próxima do fim.


Os argonautas passando pelas Simplégades. Escola francesa, século XIX

Em Cólquida

Enfim, as majestosas montanhas do Cáucaso se ergueram acima do horizonte leste, e os Argonautas alcançaram o canto mais afastado do mar Negro, onde a lenda diz que a águia de Zeus bicava as entranhas do pobre Prometeu, acorrentado à pedra por ter roubado o fogo dos deuses. Quando a noite caiu, Argeu guiou os Argonautas entrando na boca do rio Phasis (hoje Rioni), que corre para o mar no porto russo de Poti. À esquerda deles estava Aia, a capital da Cólquida, e à sua direita se estendia o planalto de Ares, onde, segundo Píndaro, um dragão tão comprido quanto o “Argo” guardava o carvalho onde o Velocino de Ouro estava dobrado, “cintilando ao sol como o escudo de Zeus”. Com o mastro e a vela guardados, a embarcação deslizou nas turbulências que cercavam a boca do rio. Lá, os Argonautas jogaram sua âncora de pedra e dormiram.



Jasão e os Argonautas desembarcam em Cólquida. Pintura localizada no Palácio de Versalhes.

Medéia e Jasão

Diante do rei Eetes, filho de Hélio, o Sol, Jasão reclamou a posse do Velocino de Ouro. O rei da Cólquida reagiu como Pélias: não recusou, mas estabeleceu ao herói penosas tarefas. Primeiro, Jasão teria de colocar uma canga nos dois touros do rei que expeliam fogo pelas narinas e arar o campo de Ares; então, ele teria que matar o dragão e plantar seus dentes; depois, teria que matar os guerreiros que brotassem deles. Felizmente para Jasão, a seta de Eros trespassara o coração de Medéia, a jovem filha de Eetes. Foram o amor de Medéia e os poderes mágicos que ela recebeu de sua madrinha, a grande feiticeira Hécate, que finalmente tornaram possível a Jasão passar por todos os testes de Eetes e obter o velocino. Mas a princesa traíra o pai, o qual numa fúria cega matou a irmã mais velha de Medéia. Apolônio diz que todo o mal gera outro. Mais tarde, a própria Medéia teria de assistir a Jasão matando seu irmão, Anceu, e uma série de horrores a transformariam de uma donzela amorosa em uma feiticeira odiosa, e Jasão de um herói relutante num vagabundo desesperado.

Jasão e o velo de ouro, de Erasmus Quellinus, o Jovem (1607-1678)

O retorno para Iolco

Com sua missão cumprida, os Argonautas puseram fogo numa das frotas de Eetes e, levando Medéia, navegaram para casa, seguindo como aconselhara Fineu uma rota diferente do caminho de ida, porquanto navegar para o oeste ao longo de toda a extensão da costa sul do mar Negro seria investir contra os ventos e correntes predominantes.

De acordo com Apolônio de Rodes, o ‘Argo’ iniciou sua viagem de volta para casa navegando da Cólquida para o oeste, tão longe quanto o rio Malys, no cabo Bafra, umas 175 milhas náuticas. Isso teria levado menos de 24 horas aos oito nós que a nau era capaz de fazer, com o vento divino que sem dúvida Medéia e Hécate invocaram para o primeiro dia de sua fuga. Após uma parada na boca do rio para sacrifícios em honra à feiticeira, Jasão e sua tripulação seguiram a rota noroeste, cruzando o mar Negro até a boca do Íster (hoje Danúbio), permanecendo um tempo na “ilha Triangular, Peuce”, na fronteira da atual Romênia. Mas lá uma surpresa ruim os aguarda. Uma esquadra de cólquidas liderada por Apsirto, o irmão mais novo de Medéia, guardava a entrada para o rio.

Jasão, fiel ao seu tipo, recorreu à traição. Ele jurou entregar Medéia para Eetes como um oferecimento de paz e o jovem cólquida concordou em negociar com o líder argonauta ao anoitecer. Resoluto, Jasão matou o jovem e bebeu seu sangue enquanto Medéia assistia. Com seu líder morto, os cólquidas foram então massacrados. Ao saberem de outra esquadra inimiga vindo ao seu encontro, os argonautas navegaram Danúbio acima.

A tradição danubiana manda o ‘Argo’ através dos lagos Constança, Biel, Neuchâtel e Léman, descendo o Reno até o Mediterrâneo, numa distância de aproximadamente 60 quilômetros de transportes por terra. Contudo, na atual Belgrado, que já fica a cinco graus ao norte de Iolco, o Danúbio faz uma curva muito definida para o norte, de modo que Jasão e seu navegador, Anceu, observando suas estrelas natais, certamente teriam começado a se preocupar por avançar demais para o norte. O rio Sava, por outro lado, corre para o Danúbio diretamente do oeste, e em Sisak, o rio Kupa corre para o Sava, também do oeste. Os Argonautas devem então ter remado para o oeste, subindo esses rios até o Brod-na-Kupi, “a Passagem de Kupa”, onde somente 30 quilômetros de montanhas salpicadas por lagos os separava do Adriático. Neste ponto, os Argonautas provavelmente contaram com a ajuda dos celtas para transportarem o barco por terra, num trajeto curto, mas nada fácil, pois as montanhas atingem uma altura de 300 metros. Interessante notar que até hoje a cidade de Pula, a maior da península da Ístria, na atual Croácia, se orgulha de ter sido visitada pelos heroicos Argonautas.

Portanto, o ‘Argo’ foi empurrado por cima das montanhas sobre rolos de madeira e voltou festivamente para o mar abaixo de Ístria. Navegando para a ilha de Electra (hoje Krk), os gregos seguiram um rio até Hilas, a costa habitada pelos Hílios ou Ilírios. Finalmente, ao sul de Zadar, a costa dálmata começa a vestir suas pedras com oliveiras e ciprestes. Farejando o lar, a tripulação navegou facilmente, passando pelas ilhas liburnianas até Ninfas, a atual cidade murada de Dubrovnik. Seu porto costumava ser chamado de Ragusa, possivelmente uma corruptela de ‘Argusa’. Finalmente, o ‘Argo’ conseguiu chegar a casa através de águas familiares, ao redor do Peloponeso e do cabo Sounion, subindo por dentro do golfo de Eubéia e passando por Aulis, onde mais tarde a frota de Agamenon se reuniria para atacar Tróia.



A rota dos Argonautas segundo a descrição de Apolônio de Rodes (295 a. C - 230 a.C). Em verde, o trajeto de ida; em laranja, o de volta. A rota da viagem de retorno é até hoje objeto de uma enorme gama de interpretações, cada qual propondo um caminho alternativo rumo a Iolco.

O legado dos Argonautas

A notícia do Velocino de Ouro e da ruiva Medéia certamente chegara antes do ‘Argo’ e sua entrada no golfo de Pegasae deve ter sido algo digno de ser visto. Mas Medéia afundara no mal que nasce do amor não correspondido e, tendo traído seu próprio pai e permitindo que seu irmão fosse morto por Jasão, ela agora assassinara a Pélias e organizou um banquete no qual o serviu às próprias filhas.

Jasão, que ao final não amava ninguém, decidiu deixa-la e casou-se com Glauce, filha única de Creonte, rei de Corinto, explicando a Medéia que, após tê-la trazido “do fim do mundo para o centro da civilização”, tinha agora o direito de procurar seu próprio destino real.

Com seu amor agora queimando como uma chama congelada, Medéia deu a Jasão como presente de casamento para sua nova consorte, o manto que fizera do Velocino de Ouro. No dia do casamento, quando Glauce jogou o manto resplandecente ao redor de seus ombros, o velocino, leproso com tanta traição, grudou à sua pele. Quando tentou removê-lo, sua carne saiu com o manto e ela morreu de maneira horrível.

Medéia, que não era mais uma feiticeira, mas uma bruxa completa, cortou a garganta dos dois filhos que tivera com Jasão e partiu para Atenas com seu velho rei, Egeu. E Jasão, o cauteloso príncipe, enfim sabendo que seu destino não lhe ofereceria nem pompa real nem calor humano, terminou seus dias vagando pelo norte congelado.

Apesar do fim obscuro do herói Jasão, os Argonautas tinham sido bem sucedidos em estender o mundo conhecido através do mar Negro até ao Cáucaso. Eles agora achavam que o rio Phasis era o Rio de Oceano oriental, além do qual o Oceano Infinito rugia em torno da parte de trás do globo. E caberia a Ulisses, o Odisseu, descobrir de onde o Rio de Oceano ocidental fluía, vindo do outro extremo do Oceano para o mar conhecido. “O tempo passa”, dizia Píndaro, poeta grego dos séculos VI a V A.C, “e velas caídas e frouxas aguardam o tremor de uma nova brisa”.

A costa da Geórgia banhada pelo Mar Negro. Paisagens semelhantes foram contempladas pelos Argonautas ao chegarem no reino de Cólquida, considerado até então o "fim do mundo" pelos ocidentais.

Fonte:

OBREGÓN, Maurício. Além dos limites do oceano – Navegando com Jasão e os Argonautas, Ulisses, os Vikings e outros exploradores do mundo antigo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. O artigo acima é um resumo das páginas 55 a 81, com pequenos acréscimos.


Outra referência:

STEPHANIDES, Menelaos. Jasão e os Argonautas. São Paulo: Editora Odysseus, 2000. Indicada ao público infanto-juvenil.

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