Os 100 Anos da Batalha da Jutlândia

Há cem anos, entre 31 de maio e 1 de junho de 1916, no decurso da I Guerra Mundial, as esquadras britânica e alemã travaram no mar do Norte, próximo à Dinamarca, um longo e intenso combate de 36 horas, a célebre Batalha da Jutlândia, uma das maiores batalhas navais da História.

Conheça as causas do confronto, seus líderes, as forças navais em disputa e seu resultado na nova atualização de Diário de Bordo, a qual abre o tópico “Batalhas Navais”.


A Batalha da Jutlândia. Óleo sobre tela do pintor britânico Montague Dawson (1890-1973). C. 1949.

A Jutlândia

A Jutlândia é uma península da Dinamarca, situada ao extremo norte da Alemanha, cujo nome alude aos jutos, os antigos habitantes germânicos da região, os quais a partir do século IV, ao lado dos anglos, saxões e frísios, atravessaram o mar do Norte para invadir a Inglaterra.

Um estreito chamado Skagerrak separa a península da Jutlândia ao sul da Noruega. Outro estreito, o Kattegat, separa a Dinamarca da Suécia. Ambos os estreitos são rotas estratégicas que ligam o mar do Norte ao mar Báltico.

A Batalha da Jutlândia ocorreu no Skagerrak, denominação adotada pelos alemães para se referir ao famoso combate naval: ‘Skagerrakschlacht’ (A Batalha do Skagerrak).


O mar do Norte. Entre a Dinamarca e a Noruega observa-se o estreito do Skagerrak, local da Batalha da Jutlândia.

Dois comandantes em dilemas opostos

Ao eclodir a I Guerra Mundial, em 1914, o Império Britânico consolidava-se como o maior império em extensão territorial da História. Saciada de colônias ultramarinas, a Inglaterra abandonara a partir de então seus planos expansionistas, adotando uma posição defensiva: “Conservar o que possuímos”.

O redirecionamento da política nacional influiu diretamente na transformação da política naval, marcada agora por uma estratégia cautelosa, tal como expressa no Memorando das operações, do almirante John Jellicoe, de 30 de outubro de 1914. “Nada abandonar ao acaso”, dizia o documento, “porque a nossa esquadra é o único fator essencial tanto para a existência do Império como, de fato, para a causa aliada”. Era necessário, portanto, evitar ações perto de bases inimigas e também uma perseguição imediata do inimigo, que exporiam a esquadra a danos causados por submarinos, minas ou torpedos. “Isto podia destruir a metade da nossa esquadra antes que os canhões abrissem fogo”.

Winston Churchill, Primeiro Lord do Almirantado, compreendeu as razões do Memorando e aprovou-o, apesar de suas ideias mais agressivas. A mesma postura foi seguida pelo Primeiro Lord do Mar, almirante John Fisher, o qual de certo modo compartilhava das concepções do futuro primeiro-ministro, tendo uma vez declarado que “na guerra a coisa que mais se deve temer é um homem cauteloso”.



Almirante Sir John Jellicoe (1859-1935), comandante da Grande Frota Britânica na Batalha da Jutlândia.



Para a Alemanha, o atraso na corrida colonial determinado pela unificação política tardia levou o kaiser Guilherme II a investir pesadamente na Marinha de Guerra, de sorte a construir uma potente Esquadra de Alto Mar, capaz de rivalizar com o poderio naval britânico no mar do Norte. Mesmo assim, em 1916, as forças navais alemãs encontravam-se em rigorosa inferioridade, numa proporção de 8 para 5. Neste sentido, os números indicavam que uma política naval defensiva era mais recomendável à Alemanha do que à Grã-Bretanha.

Todavia, na primavera de 1916, quando o comando passou para as mãos do vice-almirante Reinhard Scheer, uma nova mentalidade se desenvolveu na Esquadra de Alto Mar, com a adoção de ações mais ofensivas, através do emprego de todos os recursos à disposição, tais como, minas, aviões, submarinos e, inclusive, a frota principal!

A ousada estratégia tinha suas justificativas. A ofensiva terrestre de Verdun declinava em vigor e o bloqueio naval britânico já se tornava opressivo. Além disso, em resposta aos vigorosos protestos do presidente americano Wilson, após o afundamento do ‘Sussex’ (26/03/1916), o governo alemão prometera moderar a guerra submarina, o que proporcionaria submersíveis para o uso em conjunto com a esquadra.



Almirante Reinhard Scheer (1863-1928), comandante da Esquadra de Alto Mar da Marinha Imperial Alemã na Batalha da Jutlândia.


Os preparativos




A operação que conduziu diretamente à Batalha da Jutlândia foi concebida pelo almirante Scheer, entre março e abril de 1916. O plano previa incursões ligeiras contra as costas da Inglaterra, perto de Sunderland. Antes, todos os submarinos disponíveis deveriam estacionar diante das bases britânicas, pelo período de 23 de maio a 1° de junho, de modo a atacarem os ingleses assim que estes se lançassem ao mar para o combate. O reide não tinha o objetivo de provocar um choque final, pois o próprio Scheer reconhecia que “a proporção das forças navais nos prevenia contra uma batalha decisiva”. A esperança era uma concentração alemã contra alguma parte da força inimiga.

Do lado inglês também havia por aquele tempo uma tendência à ação mais positiva, parte em resposta à urgente necessidade de comunicação mais direta com a aliada Rússia, parte a fim de aliviar as críticas quanto à passividade da guerra naval. Formulou-se então um plano para uma varredura na abertura do Báltico, cujo acesso era controlado pela Esquadra de Alto Mar comandada por Scheer. A ação teria início a 2 de junho e seu fim era muito semelhante ao do reide dos alemães a Sunderland.

Dispondo de um eficiente serviço de informações pelo rádio, os ingleses sabiam das atividades navais inimigas para fins de maio. Assim, na tarde de 30, um despacho do Almirantado ordenava que se fizessem ao mar o almirante Jellicoe com a força de navios de batalha ancoradas em Scapa Flow (base naval britânica situada nas ilhas Orkney, Escócia) e o vice-almirante David Beatty, da base de Rosyth, com os cruzadores.

À meia-noite de 30 para 31 de maio, as forças inglesas já navegavam para leste, com um encontro projetado para o dia seguinte, a leste do Skagerrak. Registraram-se apenas dois ou três contatos com U-boats, mas sem nenhuma perda para os ingleses. Isto porque, do lado alemão, a operação programada fora adiada para trabalhos de reparação e pelo mau tempo. No último momento, a visibilidade ainda desfavorável para patrulhamento por zepelins forçou uma súbita modificação nos planos. Ao invés de um reide às costas inglesas seria efetuado um movimento menor, rumo norte, na direção do Skagerrak. Para despistar o Almirantado Britânico sobre a mudança de rota, Scheer combinou a transmissão de todas as mensagens da capitânia, indiretamente, por meio de guarda-costas estacionados nas várias linhas. Por isto, o encontro das duas esquadras na tarde seguinte foi parcialmente casual e nenhum dos adversários possuía informações seguras, mesmo durante toda a batalha, quanto ao poderio das forças contrárias.



Nos preparativos alemães para a Batalha da Jutlândia, vários dirigíveis zepelins foram empregados pelo almirante Scheer para detectarem a presença da Grande Frota Britânica. As más condições climáticas do dia 29 de maio, porém, levaram o comandante a evitar a costa inglesa e conduzir a esquadra rumo ao Skagerrak.

As forças navais em jogo




Às 14 horas de 31 de maio, a principal frota inglesa, comandada pelo almirante Sir John Jellicoe estava a oeste do Skagerrak. Eram 24 encouraçados dreadnoughts, formados numa linha de seis divisões e protegida por 3 cruzadores de batalha, 8 cruzadores couraçados, 12 cruzadores ligeiros e 51 destróiers (contratorpedeiros).

Dezesseis milhas à frente dos encouraçados achavam-se as duas divisões de cruzadores couraçados de quatro navios cada uma, entre as quais o ‘Hampshire’, para servir de elo para a transmissão de sinais. Quatro milhas ainda mais adiante estavam os 3 cruzadores de batalha capitaneados pelo contra-almirante Hood, também protegida por destróiers e cruzadores ligeiros.

Cerca de setenta milhas para o sul, as forças de patrulhamento do vice-almirante Sir David Beatty estavam a ponto de mudar de rota, da direção leste para nordeste. Esta frota de apoio era composta por 4 couraçados dreadnoughts, 6 cruzadores de batalha, 15 cruzadores ligeiros (um deles, porta-avião, com Beatty a bordo) e 27 destróiers.

A primeira esquadrilha de cruzadores de batalha de quatro navios capitaneada pelo ‘Lion’ era acompanhada de flanco por uma 2° esquadrilha de cruzadores de batalha de dois navios e pela 5° esquadrilha de batalha, formada por quatro dos melhores navios de combate da frota, os ‘Queen Elizabeth’, de 25 nós, comandados pelo contra-almirante Evan Thomas.

As forças navais britânicas contavam, portanto, com um total de 150 navios de combate.



Vice-Almirante Sir David Beatty (1871-1936), comandante do 1° Esquadrão de Cruzeiros de Batalha Britânicos na Batalha da Jutlândia.



Pela mesma hora (14 horas), o vice-almirante Franz von Hipper, com a força alemã de patrulha, vinha rumando para o norte, a cerca de 15 a 20 milhas a sudeste de Beatty. Hipper comandava o 1° grupo de patrulha, que consistia nos cruzadores de batalha ‘Lützow’ (capitânia), ‘Derfflinger’, ‘Seydlitz’ e ‘Von der Tann’, acompanhado do 2° grupo de patrulha de 5 cruzadores ligeiros e 30 destróiers.

Sessenta milhas ao sul de Hipper estava o corpo principal da Esquadra de Alto Mar, comandada pelo almirante Scheer. Vinha em uma longa coluna de duas divisões (1° e 3°) com 16 modernos dreadnoughts, sendo a capitânia o ‘Friedrich der Grosse’, o décimo da coluna, seguida pela 2° divisão de 6 encouraçados pré-dreadnoughts. Estes últimos navios, mais vagarosos e mais antigos, deveriam constituir mais um embaraço do que uma vantagem, mas por considerações sentimentais e atendendo aos pedidos de seu bravo comandante, almirante Mauve, Scheer foi induzido no último momento a trazê-los consigo. A proteção ficava a cargo de 6 cruzadores ligeiros e 31 destróiers.

Ao todo, as forças navais alemãs contavam com 98 navios de combate.



Vice-Almirante Franz von Hipper (1863-1932), comandante do 1° Grupo de Exploração da Esquadra de Alto Mar Alemã, durante a Batalha da Jutlândia. Em 1918, Hipper sucedeu ao almirante Scheer no comando da Esquadra de Alto Mar.


Quanto ao poderio de fogo, os ingleses possuíam um total de 344 canhões pesados, enquanto os alemães dispunham de 244. Devido ao seu maior calibre, uma só descarga dos canhões pesados ingleses teria mais de 713 000 libras, contra 213 000 dos alemães. Contudo, os alemães estavam em melhores condições no tocante a couraças e compartimentos estanques. Deixando fora de conta, como de diminuto valor combativo, os cruzadores couraçados ingleses e os pré-dreadnoughts alemães, os ingleses tinham uma superioridade de tonelagem que pode ser definida como de 7 para 4.



Os portos de partida das forças navais britânicas e alemãs que se defrontaram na Jutlândia


Primeira Fase – Beatty x Hipper – O choque dos cruzadores de batalha

Às 14h 20 m, o cruzador ligeiro ‘Galatea’, o mais adiantado para leste dos navios-patrulhas de Beatty, avistou dois vasos inimigos abordando um navio neutro. O comandante, por isto, aumentou a velocidade a fim de cortar-lhes a retirada.

Às 14h 45m, Beatty ordenou a saída de um hidroavião do ‘Engadine’ para reconhecer a posição do inimigo. Foi o primeiro reconhecimento aéreo da história em combates navais, e o seu único uso naquele dia, uma vez que os cinco zepelins, mais tarde enviados pelos alemães, nada viram da batalha. O avião inglês não conseguiu decolar antes de 15h 8m e suas informações, embora exatas, chegaram demasiado tarde e não foram transmitidas para o navio capitânia. Nesse ínterim, o ‘Galatea’ enviava novas notícias de espessas nuvens de fumaça, “tais como as de uma esquadra”.

À primeira mensagem do ‘Galatea’, interceptada pelo capitânia de Jellicoe, ‘Iron Duke’, a velocidade do grosso da esquadra foi aumentada para a levarem ao teatro da luta. A 3° esquadrilha de cruzadores de Hood foi enviada adiante, a fim de cortar uma possível retirada dos alemães em direção de Skagerrak. Recebendo também comunicações de contatos com as forças inglesas, o almirante Scheer aumentou igualmente a velocidade do corpo principal de sua esquadra.

Às 15h 48m, os cruzadores de batalha alemães abriram fogo a 13 200 metros do inimigo. Os ingleses começaram a atirar menos de um minuto depois. A visibilidade no início era perfeita para ambos os lados. Os cruzadores de batalha envolvidos no combate eram:


Ingleses: Queen Mary, Lion, Tiger, Princess Royal, Indefatigable e New Zealand.


Alemães: Lützow, Derfflinger, Seydlitz, Moltke e Von der Tann.


'SMS' Lützow, navio capitânia dos cruzadores de batalha alemães que participaram da Batalha da Jutlândia. Lançado em novembro de 1913, media 210, 4 metros de comprimento, 29 de boca (largura) e 9,2 de calado.

A relativa ineficiência da artilharia britânica na primeira fase do combate parece ter sido devida em parte à superestimação da distância, dada pelos ingleses como sendo 16 800 metros, em lugar dos 13 200 metros. Os dois navios capitânias concentraram-se primeiro contra o ‘Lützow’, e dois outros sobre o ‘Moltke’, deixando o ‘Derfflinger por dez minutos fora do fogo. A artilharia alemã, por outro lado, denotou o superior instrumental óptico e rigoroso adestramento para velocidade e precisão inicial. Uma vez convergentes para o alvo, os seus 4 canhões despejaram as suas descargas de 20 em 20 minutos, com as baterias secundárias disparando nos intervalos. Dentro de cinco minutos, o capitânia ‘Lion’ era atingido duas vezes e o ‘Tiger’ três vezes. Nesse ínterim, a distância caíra a 11 800 metros.

O segundo tiro inglês na batalha foi dirigido às 15h 57 m contra o ‘Seydlitz’. A explosão se deu na torre do meio do navio, matando quase toda a sua tripulação, mas uma rápida inundação evitou que as labaredas se comunicassem ao paiol, acidente que iria causar a destruição de três cruzadores de batalhas britânicos. Um quarto tiro no ‘Lion’, às 16 horas, teve efeito idêntico, explodindo a torre central e matando todos os artilheiros, exceto um major e um sargento marinheiro. Apesar de mortalmente ferido, o major Warvey dedicou os seus últimos momentos a ordenar o fechamento e inundação do paiol, salvando assim o navio, quando novas explosões arrebentaram na cabine de comando. Quatro minutos depois, o ‘Indefatigable’ foi alcançado por uma rápida sucessão de seis granadas do ‘Von der Tann’. Houve uma violenta explosão e, um minuto após, o navio soçobrava, levando consigo 1017 oficiais e marinheiros.

Embora a distância estivesse agora rapidamente aumentando, o ‘Von der Tann’ sofreu fortemente, pois veio a cair debaixo do fogo dos ‘Queen Elizabeth’, que estavam a 17 300 metros na retaguarda. Alcançado subsequentemente por três granadas de 381 mm e reduzido a duas principais baterias de canhões ainda em ação, o ‘Von der Tann’ ainda alcançou seu lugar na linha para tomar parte na batalha. Com o apoio dos cruzadores de batalha, Beatty mudou de direção para uma rota convergente.



Cruzador de batalha britânico 'HMS' Indefatigable, às 15:00 horas do dia 31 de maio de 1916, meia hora antes de seu afundamento pelo cruzador de batalha alemão 'Von der Tann'.

Naufrágio do 'HMS' Indefatigable, durante a Batalha da Jutlândia. Da tripulação de 1019 oficiais e marinheiros, apenas 2 sobreviveram.

O fogo dos cruzadores de batalha mais uma vez se tornou intenso e o ‘Queen Mary’, debaixo de uma concentração temporária do ‘Seydlitz’ e do ‘Derfflinger’, foi atingido em rápida sucessão por cinco projéteis de 305 mm. Dois perfuraram a torre central, causando uma explosão como a que submergira o ‘Indefatigable’ vinte minutos antes. O navio mergulhou pela proa com suas hélices ainda girando no ar. Nesse momento, Hipper, ameaçado não somente por Evan Thomas, como também pelos destróiers de Beatty, foi forçado a virar definitivamente para sudeste, precisamente no momento em que ambas as esquadras recebiam os primeiros avisos da aproximação de Scheer.

Calcula-se que, durante os primeiros 12 minutos da ação, os alemães conseguiram acertar 12 tiros contra 4 dos ingleses. Durante a primeira meia hora, seus tiros eram na proporção de cerca de dois contra um. No fim desse tempo somente 11 das 16 torres, nos quatro restantes cruzadores ingleses, estavam ainda em ação, ao passo que os alemães podiam operar com 17 das suas 22. Considerada em si mesma, essa batalha de cruzadores foi uma vitória nítida dos alemães e os reforços para Beatty eram mais do que oportunos.

Cruzador de batalha 'HMS' Queen Mary, da Royal Navy. Lançado em março de 1912, media 214 metros de comprimento, 27 metros de boca e 10 metros de calado.

Explosão e naufrágio do 'HMS' Queen Mary, durante a Batalha da Jutlândia. O cruzador de batalha britânico foi atingido por uma sucessão de disparos dos cruzadores de batalha alemães 'Seydlitz' e 'Derfflinger'. Os destroços do navio foram descobertos somente em 1991 e servem de túmulo para 1266 oficiais e marinheiros.

Pouco depois das 16 horas, ambos os lados ordenaram o ataque dos destróiers. Os ingleses puderam lançar 12 destróiers em ação, os quais foram defrontados por 15 menores dos alemães. Seguiu-se então o que os ingleses descreveram como “uma esplêndida espécie de refrega confusa, na qual os destróiers de ambos os lados entraram em luta em todas as direções”. Os alemães perderam dois navios, o ‘V 27’, por bomba incendiária, e o ‘V 29’, por torpedo do ‘Petard’. Às 16h 57 m, quando a força de Hipper estava virando para o norte, na direção de Scheer, cinco destróiers ingleses conseguiram afinal colocar-se em posição de ataque e, enfrentando o fogo dos torpedeiros hostis, do cruzador ‘Regensburg’ e das baterias secundárias dos cruzadores de batalha, avançaram até 6700 e 4500 metros, o que foi descrito como “o mais bravo ataque de destróiers de toda a história naval”. De cinco torpedos, um alcançou o ‘Seydlitz’, resultando fazer ele muita água. Dois dos destróiers ingleses, o ‘Nestor’ e o ‘Normand’, foram incapacitados de combater, mas sua heroica tripulação manteve-se firme até que pudesse lançar o seu último torpedo contra as divisões avançadas de Scheer, que acabaram afundando com uma chuva de obuses.

Por esse tempo, a 2° divisão de cruzadores ligeiros ingleses, sob o comando do comodoro Goodenough, avisou de sua posição à testa da esquadrilha de Beatty que as principais forças alemãs já se encontravam à vista e apressou-se a se colocar a uma distância de cerca de 13 000 metros. Por um hábil ziguezague, a esquadrilha escapou de graves danos e, tanto naquele momento como mais tarde, enviou valiosas informações a Betty e Jellicoe. Foi ordenado que a esquadrilha de cruzadores de batalha de Beatty virasse para o norte, enquanto Scheer ainda estava com os seus navios de linha na distância extrema. Depois que os cruzadores de batalha passaram na sua rota para o norte, os ‘Queen Elizabeth’ seguiram na sua esteira e, deste modo, os cobriram em seu movimento para o norte.


Segunda e Terceira Fases – Intervenção de Jellicoe e Scheer – O choque principal

Nessa altura, a situação estava exatamente invertida. Enquanto Beatty escapava, sob fogo, de forças superiores, estava ao mesmo tempo ardentemente atraindo-as para a Grande Frota, do mesmo modo que Hipper havia previamente atraído as forças avançadas inglesas para Scheer.

Já foi observado que, após ter recebido a notícia da presença do inimigo, o almirante Jellicoe ordenou a Hood que fosse com a 3° esquadra de três velhos cruzadores de batalha cortar a possível retirada do inimigo para o Báltico. Ao receber ordens posteriores para sustentar Beatty, Hood alterou o curso na direção do fogo. Por volta de 17h 40m, um dos cruzadores ligeiros, o ‘Chester’, caiu debaixo do fogo pesado dos navios avançados de Hipper e, atraindo-os, conseguiu atirá-los para o alcance dos canhões da esquadrilha de Hood, que surgiu do nevoeiro a 10 000 metros de distância. O ‘Chester’ já havia sido seriamente danificado e, na ação posterior, o destróier capitânia inglês, ‘Shark’, foi incapacitado para a luta, enquanto o cruzador ligeiro alemão ‘Wiesbaden’ era posto fora de ação. Este navio, embora atingido por descargas de obuses de 305 mm, permaneceu no centro da área de batalha como excelente mira para os navios inimigos de todos os tipos, soçobrando apenas próximo à manhã seguinte.

Mais para oeste de Hood, duas das mais avançadas guardas de cruzadores couraçados de Jellicoe, resolvidos a acabar com o ‘Wiesbaden’, entraram na zona de alcance de Hipper e Scheer. O capitânia ‘Defence’ voou pelos ares às 18h 20 m, com perda total do pessoal à vista da maioria dos navios de ambos os lados. Seu companheiro, o ‘Warrior’, ficou tão seriamente danificado que se retirou da ação e foi abandonado no dia seguinte.



Cruzador encouraçado 'HMS' Defence, navio capitânia dos oito cruzadores couraçados do almirante Jellicoe, que tomaram parte na Batalha da Jutlândia. Atacado por um cruzador de batalha alemão e quatro encouraçados dreadnoughts, afundou no mar do Norte com perda total de sua tripulação, calculada em aproximadamente 900 homens.

Ainda mais para oeste, a força do almirante Beatty entrou rapidamente em contato com o grosso da frota inglesa e, por volta das 18 horas, estava à vista do ‘Iron Duke’, o navio almirante da Grand Fleet (Grande Frota). Quinze minutos depois, os navios de Hipper chegaram à vista do capitânia de Jellicoe. Então, foram expedidas ordens para que a esquadra tomasse posição a bombordo.

Nesse ponto de reunião das esquadras havia grande confusão, que requeria, nas próprias palavras de um oficial inglês, “tal manejo de navios como jamais fora sonhado por nenhum homem do mar”. Beatty, por entre as nuvens de fumaça, estava navegando justamente ao sul da linha de formação, a fim de tomar sua posição na vanguarda. Evan Thomas, atrasado, era forçado a tomar posição na retaguarda. Ao virar para o norte para realizar o seu movimento, o leme do ‘Warspite’ imobilizou-se e ele descreveu dois círculos para estibordo, em direção da fila alemã. Embora servisse de cobertura ao danificado ‘Warrior’, acabou por ser um alvo para toda a frota alemã e foi atingido 9 vezes, elevando-se a 13 o total dos obuses recebidos no dia. Fazendo água, foi afinal normalizado e rumou para Rosyth, que alcançou a salvo no dia seguinte.

Os combates subsequentes das esquadras principais podem ser divididos em dois períodos de intenso canhoneio, o primeiro de cerca de 18h 40m, e o segundo de 19h 5m a 19h 30m. No início do primeiro período, Beatty já tinha desembaraçado a dianteira da coluna principal enquanto no mesmo instante a força de Hipper e alguns navios da vanguarda de Scheer apareceram através da cerração e da fumaça aproximadamente a 11 000 metros ao sul. Sucessivamente, o ‘Colossus’, o ‘Hercules’, o ‘Iron Duke’ e outros dez couraçados romperam fogo. A visibilidade era completamente favorável aos ingleses e em 42 descargas, eles acertaram 12 tiros, principalmente no ‘Lützow’, no ‘Derfflinger’ e no couraçado capitânia ‘König’. Às 18h 37 m, o ‘Lützow’ saiu de linha. Durante o dia fora atingido 20 vezes e estava seriamente avariado à proa e com a velocidade reduzida a 15 nós. Foi posto a pique por destróiers de patrulha, às 7 horas da manhã seguinte, quando a caminho da base. Hipper passou para um destroier, mas não chegou a bordo do ‘Defflinger’ senão tarde da noite, ficando o capitão Hartog, do ‘Defflinger’, no exercício do comando dos cruzadores de batalha durante o intervalo. O rádio do ‘Konig’ foi destruído por tiros e o navio adernou 4,5 graus.

O ‘Lützow’ e o ‘Derfflinger’, no entanto, encontraram um pouco mais cedo um alvo no velho cruzador de batalha ‘Invincible’, capitânia da esquadrilha de Hood, o qual se tinha adiantado para o norte, ficando a girar à roda na frente de Beatty. Debaixo do fogo combinado de ambos, foi atingido repetidamente. Uma descarga final às 18 h 31 m arrancou o teto de sua torre Q e fez explodir o paiol. O navio partiu-se em dois e afundou rapidamente. Apanhados por um destróier, 4 oficiais e 2 marinheiros foram os únicos sobreviventes.


O 'HMS' Invincible. Lançado em abril de 1907, o cruzador de batalha da Royal Navy possuía 173 metros de comprimento, 24 metros de boca e 9 metros de calado.

A explosão do 'HMS' Invincible, após ser atingido por fogo conjunto dos cruzadores de batalha alemães 'Lützow' e 'Derfflinger', durante a Batalha da Jutlândia. Foto tirada a bordo de um destróier. No ataque e no naufrágio subsequente pereceram o contra-almirante Hood e mais 1025 oficiais e marinheiros, com apenas 6 sobreviventes.

A péssima visibilidade reinante não permitiu a Scheer responder de maneira adequada à forte concentração sobre seus couraçados. Temendo o envolvimento, ele fez às 18h 35m a primeira de suas célebres contramarchas de batalha, devido à qual, começando na retaguarda, os 16 navios de suas duas esquadrilhas principais inverteram o rumo quase simultaneamente para oeste. Estas voltas não foram percebidas pelos ingleses e os movimentos da esquadra alemã nesse instante permaneceram desconhecidos dos adversários até a publicação dos relatórios alemães depois da guerra.

Cessado o fogo, Jellicoe mudou o rumo inconsideradamente para sudeste – mudança apenas de um ponto e certamente não suficiente para manter contato com um inimigo navegando a oeste. A cautelosa rota foi mantida ate 18h 55m, quando a esquadra virou para o sul. Alguns peritos sugeriram que nesse momento, e não mais tarde, seria de grande conveniência ter-se aproximado do inimigo com uma radical mudança de rota. Desse modo, as forças de Scheer que se moviam para oeste ficaram completamente desembaraçadas, ficando desobstruído o regresso à base.

Nessas circunstâncias, Scheer retomou o seu movimento para leste. A decisão é até hoje matéria controversa e sujeita a discussão. O próprio almirante alemão assim se referiu ao assunto: “(...) Ainda menos exequível era procurarmos afastar-nos do inimigo, deixando-lhe a vantagem de decidir da ocasião em que combateríamos no dia seguinte. Só havia um meio de evita-lo: forçar o inimigo a uma segunda batalha com outro avanço resoluto e compelir os seus destróiers a atacar-nos”.

A ideia era admirável, mas sob o ponto de vista tático, o segundo avanço leste, às 18h 25m, era menos feliz, porquanto em dez minutos traria a vantagem de sua coluna de 16 navios quase contra o centro daqueles 27 dreadnoughts, que então navegavam em divisões para o sul. Até mesmo o relatório oficial alemão, embora louvando sua “ousadia e aguda intuição”, reconhecia que isso era “contrário a todas as regras do jogo”.

Por volta das 19h 5m, as principais forças estavam de novo em contato e romperam fogo à distância variando de 13 500 metros na vanguarda inglesa a 8000 na retaguarda. Os 20 navios ingleses despejaram um total de 125 descargas por 15 minutos e acertaram nos alvos cerca de 20 vezes, mormente nos cruzadores de batalha, ao passo que os seus únicos danos – os únicos sofridos pelas seis divisões de Jellicoe durante toda a batalha – foram dois tiros no ‘Colossus’, que feriram dois homens.

Contra uma tal concentração pareceria que somente medidas desesperadas poderiam salvar os alemães de um desastre esmagador. Desesperadas ou não, as medidas tomadas foram então suficientes contra um inimigo cuja reação era “evitar riscos” em todos os movimentos do inimigo. A fim de cobrirem a retirada, os alemães recorreram a uma sortida dos cruzadores de batalha, a um ataque de destróiers e outra rápida virada de bordo.

Às 19h 30m foi ordenada a investida da esquadrilha de cruzadores de batalha, já desmantelada e esgotada. Se era ou não do conhecimento de Scheer a condição dos navios designados para essa “cavalgada da morte”, é coisa que não se sabe. O ‘Derfflinger’ foi atingido 9 vezes. ‘O Seydlitz’ foi alcançado uma vez por torpedo e 14 vezes por projéteis pesados. O ‘Von der Tann’ não pôde usar uma só das suas baterias de canhões pesados. A direção de seu avanço foi rapidamente mudada às 19h 15m para uma rota mais para a vanguarda inimiga. Cinco minutos depois, eles vagarosamente viraram de bordo.



Cruzador de batalha 'SMS' Seydlitz, ancorado em Kiel, Schleswig-Holstein, norte da Alemanha. Lançado em março de 1912, media 200, 53 metros de comprimento, 28, 50 metros de boca e 8, 20 de calado. Na Batalha da Jutlândia, ao lado do 'SMS' Derfflinger, destruiu o cruzador de batalha britânico 'Queen Mary' em poucos segundos.

O estado final do 'SMS' Seydlitz após a Batalha da Jutlândia.




O momento crítico - 31 de maio - 19 h 15 m às 19 h 25 m

Um trecho do livro "Kiel und Jutland", do comandante Georg von Hase, oficial de artilharia do ‘Derfflinger’, fornece uma impressionante visão do momento crítico da Batalha da Jutlândia, quando os cruzadores de batalha de ambos os lados estavam debaixo de terrível fogo, recebendo o peso do violento choque:


Enquanto isso, o comandante-chefe havia percebido o perigo que ameaçava a nossa esquadra, cuja vanguarda fora cercada pelo inimigo, em semicírculo. Realmente, estávamos como salsichas na frigideira. Só havia um meio de fugir a essa posição desfavorável: virar de bordo, e retirar-nos na direção oposta. Antes de mais nada, era necessário sair daquele perigoso cerco do inimigo. Mas a manobra teria que se processar imperceptivelmente, e ser executada sem interferências. Os movimentos da esquadra precisariam ser cobertos pelos cruzadores de batalha e pelos destróiers. Às 19h 12 m, o comandante-chefe fez o sinal de contramarcha e quase simultaneamente lançou em radiograma a ordem histórica: ‘Contra o inimigo!” (Ran an den Feind)! Sem um momento de hesitação, o capitão ordenou: ‘Avante a toda velocidade, para sudeste!”. Seguidos pelo ‘Seydlitz’, ‘Moltke’ e ‘Von der Tann’, avançamos a princípio para sudeste e, depois, a partir das 19 h 15 m, diretamente no rumo da vanguarda inimiga. O ‘Derfflinger’, que era o nosso capitânia, caiu então sob o fogo impiedoso dos canhões do inimigo. Vários navios convergiram sobre nós. Escolhi um alvo e atirei o mais rapidamente possível. A distância diminuíra de 11 000 para 7 300 metros, mas mesmo assim continuamos navegando a toda a velocidade para dentro desse inferno de fogo, apresentando um alvo esplêndido para o inimigo, ao mesmo tempo em que este era dificílimo de se ver. Perto de nós caíam descargas após descargas, e o nosso navio era atingido por uma série de projéteis. Foram momentos emocionantes! Eu já não podia me comunicar com o tenente von Stosch, porque os telefones e os tubos de comunicação haviam sido destruídos por tiros; deste modo, só podia confiar na minha própria observação para dirigir o fogo. Até então todas as quatro torres blindadas haviam estado em ação, mas às 19h 13 m ocorreu um desastre sério: um projétil de 15 polegadas atravessou a couraça da torre 3 e explodiu dentro dela. O valoroso capitão da torre, tenente von Boltenstern teve ambas as pernas arrancadas e com ele pereceu quase toda a guarnição. A explosão provocou o início de um incêndio na torre. O fogo caminhou até o depósito de munições, onde inflamou mais duas cargas, e daí foi até a casa de manobras, onde incendiou mais duas. As chamas subiam alto, bem para cima da torre; mas aconteceu que elas não causaram no nosso navio a explosão que haviam causado no navio inimigo, e isso nos salvou. Entretanto, o efeito foi catastrófico. As chamas matavam todos os que iam sendo por elas atingidos. Dos 78 homens que se achavam na torre, apenas cinco escaparam, alguns seriamente feridos, por terem conseguido atravessar de rastros o buraco que serve para expelir cartuchos vazios. Os outros 73 morreram juntos como heróis, obedecendo lealmente ao seu oficial. Poucos segundos depois, a esse desastre seguiu-se outro: um projétil de 388 mm atravessou a coberta da torre 4 e explodiu dentro dela. Seguiram-se os mesmos horrores. À exceção de um, que foi expulso para fora pela escotilha da torre, devido à pressão do ar, toda a tripulação de 80 homens, inclusive os do depósito de munições, teve morte instantânea. Aí também, as chamas produziram a combustão das cargas não cobertas pelas capas protetoras. De ambas as torres da popa, subiam agora grossas chamas, misturadas a nuvens de fumaça amarela.

O navio começou então a ser sacudido por uma série de projéteis. Nós, que nos achávamos na torre de artilharia, estávamos sem dúvida em posição bem segura, mas meu coração parava quando me punha a imaginar o que estaria acontecendo no interior do navio! Subitamente, meus pensamentos foram interrompidos: parecia que ouvíamos o estouro da explosão do mundo! Uma detonação tremenda, uma explosão terrível e, logo em seguida, a escuridão. Sentimos um choque violentíssimo, que levantou toda a torre de comando, a qual soltando-se de sua base, voltou depois a ela, vibrando. Pesado projétil atingira o posto de controle da artilharia, a talvez meio metro do lugar onde eu estava. O projétil não penetrara as chapas espessas porque havia batido obliquamente, mas soltaram-se enormes pedaços da couraça. Verificamos, entretanto, que o aparelho da artilharia estava ainda em ordem. Alguns estilhaços atravessaram as aberturas das vigias da torre de comando, ferindo vários homens que lá se achavam. A explosão arrombara a pesadíssima porta blindada do posto de controle, a qual empenara de tal maneira, que a força de dois homens não conseguiu fechá-la. Nesse momento, veio um auxílio inesperado: ouvimos de novo um terrível estrondo e, como o estrugir de um trovão, explodiu debaixo da coberta outro projétil de 381 mm. O deslocamento do ar arrebatou tudo o que não estava firmemente preso no chão a rebites e a casa dos mapas desapareceu integralmente. Entretanto, algo de espantoso sucedera: essa mesma pressão de ar fechara a porta do controle da proa! O inglês mostrou-se bem educado: havendo aberto a porta para nós, fechou-a depois novamente. Procurei ver o inimigo através do periscópio, mas embora caíssem ainda obuses perto de nós, não pude ver mais que uma pequena parte da esquadra inimiga; aliás, divisávamos apenas as chamas imensas, cor de ouro avermelhado, que saíam dos seus canhões. Sem muita esperança de atingir o inimigo, continuei dando descarga após descarga, das duas torres da proa. Eu notava que os nossos tiros acalmavam os nervos da tripulação. Se cessássemos o fogo, ela se entregaria ao desespero, pois todos sabiam muito bem que só poderíamos sobreviver alguns minutos; mas continuando a atirar, as coisas poderiam não ser tão pretas. A bateria secundária atirou também, mas dos seis canhões de 150 mm, no nosso bordo que estava voltado para o inimigo, dois apenas podiam ser usados - Georg von Hase, "Kiel und Jutland".

Os cruzadores de batalha alemães foram chamados às bases quando pouco faltava para seu aniquilamento. O fato de terem suportado tão bem a prova a que foram submetidos foi, como disse o comandante von Hase, “um testemunho magnífico da perícia dos construtores da esquadra alemã e, em particular, do insigne almirante von Tirpitz”.


'SMS' Derfflinger, um dos cinco cruzadores de batalha da Marinha Imperial Alemã na Batalha da Jutlândia. Navio capitânia de sua classe, pertencia ao esquadrão de patrulha número 1, comandado pelo vice-almirante Franz von Hipper. Participou das ações que afundaram os cruzadores de batalha britânicos 'HMS' Queen Mary e 'HMS' Invincible. O drama do navio e sua tripulação no momento mais crítico dos combates foi retratado por seu oficial de artilharia, Georg von Hase, no livro 'Kiel und Jutland' - ver transcrição acima.

Danos causados no 'SMS' Derfflinger pelas forças navais britânicas na Batalha da Jutlândia. No transcurso dos combates, recebeu o impacto de 17 projéteis de grosso calibre, sendo atingido 9 vezes por salvas de baterias secundárias. Da tripulação de 44 oficiais e 1068 marinheiros, sofreu 157 perdas fatais e 26 feridos, a maior quantidade de baixas dentre todos os navios não afundados na batalha. Devido a sua extraordinária resistência na Jutlândia, os britânicos batizaram-no de "Cão de Ferro".

Ameaça maior do que a sortida dos cruzadores de batalha foi o ataque dos destróiers alemães, estes mais temidos pelo inimigo. Entre 19h 22m e 19h 30m, 14 navios descarregaram um total de 31 torpedos dirigidos principalmente contra a 6° divisão britânica, na retaguarda. O avanço efetuou-se sob arrasador fogo inimigo. Vistos dos cruzadores britânicos, os destróiers ficavam às vezes totalmente encobertos pelos repuxos de água causados pelas armas secundárias dos cruzadores de batalha e couraçados.

Um destróier, o S-35, foi afundado, e vários outros seriamente avariados. Foram aqueles 31 torpedos que provocaram a virada de bordo de Jellicoe em 4 pontos, para um recuo, sendo 2 pontos às 19h 22m e outros 2 às 19h 25m. Embora as viradas não tenham sido feitas com uniformidade não se registrou nenhum tiro acertado no alvo. A avaria no ‘Malborough’, feita por torpedo em ataque pouco tempo antes, foi motivo de bastante diminuição de velocidade, mas não forçou o navio a sair da fila. Em algumas vezes, a 6° divisão escapou por um triz.

A retirada dos britânicos, apesar de tão breve, sacrificou a enorme vantagem da posição que obtiveram na batalha. Jellicoe poderia ter avançado resolutamente, correndo o risco de avarias pelos torpedos, se usasse ao mesmo tempo as medidas de que dispunha contra eles, indo de proa ao seu encontro. O procedimento teria levado a Inglaterra a obter a vitória esmagadora que o país e seus aliados esperavam desde o início da guerra. Justamente aí é que está o elemento trágico da Batalha da Jutlândia. Por mais intolerável que pareça a um grande chefe naval o peso da responsabilidade em operação de tais proporções, o seu dever é assumir essa responsabilidade, com bom ou mau resultado, enquanto o destino das nações for ainda decidido pelo arbítrio das guerras. Em seguida a uma batalha naval anterior, o almirante inglês Calder, que tinha sob suas ordens uma força menor, foi submetido à corte marcial e repreendido por “não ter feito o máximo ao seu alcance para reencetar a batalha e capturar ou destruir todos os navios do inimigo”.



Navios de combate e destróiers alemães em ação durante a Batalha da Jutlândia. Obra de Claus Bergen (1885-1964), pintor e ilustrador alemão conhecido especialmente por suas representações da guerra naval na I Guerra Mundial.

O contato crítico entre as duas esquadras principais terminou com a mesma contramarcha alemã utilizada duas vezes antes. A esquadra alemã logo se perdeu no nevoeiro e na fumaça, em direção a oeste.

Às 20h 19m, as duas esquadras seguiam suas rotas para sudoeste. Às 19h 47m, Beatty tinha proposto que a vanguarda dos couraçados seguisse os cruzadores. “Podemos depois isolar toda a esquadra inimiga”, planejava. Com efeito, embora Jellicoe ao receber 12 minutos depois essa mensagem tenha ordenado que a primeira divisão seguisse Beatty, as duas forças haviam estado, até então, em rotas semelhantes, e achavam-se mais ou menos equidistantes do inimigo. Todavia, Beatty não deu, nem às 20 horas, nem depois, providência alguma eficaz para executar o que ele próprio sugerira.

Dados os esforços dos alemães para virarem em direção ao sul, houve na verdade uma série de encontros entre 20h 15m e 20 h e 30m, registrando-se tiros entre as forças de cruzadores a distâncias variantes de 10 a 15 quilômetros. Não houve, contudo, tentativa alguma para manter esse contato no momento em que os cruzadores alemães, enfraquecidos, viraram subitamente para afastar-se. Jellicoe virou 4 pontos, também, às 20h 28m, em direção sudoeste, numa posição da qual, do próprio capitânia, se viam as embarcações inimigas a 18 quilômetros. Mesmo nessa hora adiantada havia ainda tempo para um combate decisivo que se poderia concentrar sobre os fracos couraçados da retaguarda alemã. Mas estava escrito que não haveria segunda batalha do Nilo.

Quarta fase - O combate noturno

Em seu relatório, Jellicoe rejeitou “a ideia de entrar em ação noturna na qual tomassem parte os navios maiores, pois o resultado certo seria um desastre, primeiro porque havia grande número de torpedeiros e, segundo, por causa da impossibilidade de distinguir os navios ingleses dos navios inimigos”. Algum oficial dogmático poderia objetar que a esquadra inimiga era numericamente muito inferior, que devido às avarias o ‘Lützow’ e outras unidades vinham manquejando na retaguarda, que os destróiers alemães eram em menor número e já tinham gasto a maioria dos seus torpedos durante o dia, enquanto os britânicos haviam conservado os seus e que todos os barcos danificados do inimigo cairiam facilmente ante o ataque da força perseguidora. Quer se tenham ou não levado em conta tais considerações, ficou resolvido dirigirem-se a Horn Reefs (mar do Norte oriental, 10 milhas ao largo de Blåvandshuk, Dinamarca), preparados para recomeçar o combate ao amanhecer.

A situação de Scheer, ao cair da noite, era ainda bem difícil. Ele se achava à retaguarda dos ingleses, a oeste, para onde as suas forças haviam sido impelidas pelos encontros entre 20 e 21 horas. Seu único objetivo agora era atravessar todos os obstáculos até chegar ao abrigo que lhe forneceriam as águas minadas dos alemães. Havia somente duas entradas possíveis para as bases alemãs: uma perto da ilha de Heligoland e a outra cerca de 50 milhas mais próxima, depois de passados Horn Reefs. Jellicoe despachara o navio-mineiro ‘Abdiel’ para minar as águas ao sul do farol de Horn Reefs, prevendo acertadamente que seria a rota escolhida por Scheer.

O resultado dessa investida pela retaguarda inglesa foi uma série de encontros violentos, súbitos, que aumentaram muito as perdas alemãs, embora a esquadra se pudesse considerar muito feliz por ter escapado pagando preço relativamente pequeno. Visto que nenhuma das forças havia acendido as luzes, havia a ameaça constante de colisões, sendo até mesmo difícil distinguir entre amigos e inimigos.

Um dos primeiros ataques noturnos realizou-se por volta das 22h 30m, entre a 2° flotilha de cruzadores ligeiros, chefiada por Goodenought e um grupo semelhante de cruzadores alemães. Ambos os lados usavam holofotes e abriram fogo à distância queima-roupa de 750 metros! O ataque foi cerradíssimo. Basta dizer que o ‘Southampton’, navio capitânia de Goodenought, foi atingido 18 vezes e teve 76 baixas. Em represália, um torpedo por ele lançado atingiu o velho cruzador ‘Frauenlob’, que submergiu quase instantaneamente, com a morte de todos os seus 324 oficiais e tripulação, à exceção de cinco homens.

O ‘SMS' Frauenlob. Antes de afundar com o navio, atingido por torpedo do ‘HMS' Southampton, oficiais e marinheiros deram três "Vivas!" ao kaiser e à Alemanha. O naufrágio foi descoberto apenas em 2000 e encontra-se em ótimas condições.

Entre as 23 horas e as 24h 30m, houve uma série confusa de encontros entre a coluna principal dos couraçados de Scheer, agora capitaneados pelo ‘Westfalen’ e a 4° flotilha de destróiers, com 12 navios no flanco direito dos ingleses. Quando o ‘Tipperary’, à frente dessa flotilha, enviou vários sinais de reconhecimento a 1000 metros, quase foi destruído por uma avalancha de projéteis dos três principais couraçados inimigos. O ‘Spitfire’, que o seguia, foi submetido a fogo cerrado e, pouco depois, escapou por um triz de ser atravessado pelo esporão do couraçado ‘Nassau’, que passara junto da proa do destroier. “O navio inimigo apareceu a bombordo, destruindo tudo; os barcos salva-vidas soltaram-se e até os turcos foram arrancados dos seus mancais; em todo esse tempo eles não pararam de atirar com os canhões por cima das nossas cabeças”, narrou um oficial do 'Spitfire'. Durante a mesma batalha, o ‘Sparrowhawk’ recebeu avarias terríveis numa colisão com o ‘Broke’, cujo leme encravara depois de a ponte ter sido atingida por um projétil. Um dos torpedos lançados pela 4° flotilha atingiu o cruzador leve ‘Rostock’, que teve de ser abandonado pouco depois da alvorada. Os alemães perderam também o cruzador ‘Elbing’, que abalroou com o ‘Posen’, de sua própria esquadra. Nesse e em encontros subsequentes, os britânicos perderam um total de cinco destróiers – ‘Sparrowhawk’, ‘Tipperary’, ‘Turbulent’, ‘Fortune’ e ‘Ardent’ -, sendo que a perda dos quatro últimos resultara do fogo mortífero do ‘Westfalen’, a pequena distância. Apesar da oportunidade rara para os destróiers entrarem em ação quando os alemães atravessaram a rede protetora dos ingleses, a 4° flotilha recebeu pouquíssima ajuda das outras, num total de 44 unidades, que se dirigiam para leste. O outro único ataque de significação foi o em que tomou parte a 12° flotilha, que investiu contra a retaguarda alemã no nevoeiro e chuva da madrugada. O pré-dreadnought ‘Pommern’ foi afundado por uns doze torpedos lançados nessa ocasião.



'SMS' Westfalen, encouraçado dreadnought da Marinha Imperial Alemã. Ao lado do 'SMS' Thüringen, durante a ação noturna da Batalha da Jutlândia, atacou as forças de destróiers e cruzadores ligeiros da Grand Fleet britânica, causando danos severos ao inimigo e limpando o caminho de retirada para águas alemãs para a Esquadra de Alto Mar.


Às 2h 12m, o almirante Jellicoe tomou a resolução de voltar para o norte. A principal razão para o abandono da perseguição foi a dispersão das forças de cobertura britânicas. Não havia também certeza nas informações quanto à posição do inimigo, apesar de que, se fizessem um inquérito entre os navios da esquadra, poderiam localizar a Esquadra de Alto Mar bem definidamente para leste, tornando-se assim possível aos ingleses, mediante um vigoroso avanço em direção a Horn Reefs, cortar a retirada da referida esquadra. Os alemães passaram por esta ponta cerca de 3 da madrugada, sendo que o ‘Seydlitz’ ficou ali preso durante três horas. Poder-se-á, talvez, concluir que a interrupção do combate, ordenada pelo almirante Jellicoe, foi motivada pelo sistema invariável, que tinha ele, de evitar quaisquer operações em zonas próximas de submarinos inimigos e minas.

Pelas 3 horas, todas as unidades da Grand Fleet dirigiam-se para o norte. Passaram a manhã navegando pela região em que, no dia anterior, haviam lutado. Em seguida, voltaram-se para a direção das bases, aí chegando pelas 7 horas do dia 2 de junho.




As perdas humanas e materiais

Após 36 horas de combates, a Batalha da Jutlândia terminara com o seguinte quadro de perdas:


Royal Navy

- Marinha Real Britânica -

Perdas materiais

3 cruzadores de batalha: Queen Mary ......................................... 26 350 toneladas

Indefatigable ....................................... 18 800 "

Invencible ............................................ 17 250 "



3 cruzadores couraçados: Defence ............................................... 14 600 "

Warrior ................................................ 13 550 "

Black Princ .............................................. 13 350 "



8 destróiers: Tipperary .................................................. 1430 "

Turbulent ................................................. 1100 "

Nestor ........................................................ 890 "

Nomad ........................................................ 890 "

Fortune ......................................................... 965 "

Ardent ....................................................... 935 "

Shark ............................................................ 935 "

Sparrowhawk ............................................... 935 "

_________________

Total de toneladas: 111 980

Perdas humanas

Mortos: 6.094

Feridos: 674

Prisioneiros: 177

Kaiserliche Marine

- Marinha Imperial Alemã -

Perdas materiais

1 cruzador de batalha: Lützow ................................................. 26 180 toneladas



1 couraçado pré-dreadnought: Pommern ............................................... 13 200 "



4 cruzadores ligeiros: Wiesbaden .................................................. 5 400

Elbing .......................................................... 4 500 "

Rostock ........................................................ 4 900 "

Frauenlob ..................................................... 2 700 "



5 destróiers: V-4 ................................................................. 570 "

V-48 ............................................................... 750 "

V-27 ............................................................... 640 "

V-29 ............................................................... 640 "

S-35 ............................................................... 700 "

_________________

Total de toneladas: 60 180



Perdas humanas

Mortos: 2.551

Feridos: 507

Feridos ingleses do 'HMS'Tiger a bordo do 'HMS' Plassy - 1916

O britânico Willie Vicarage teve seu rosto desfigurado por estilhaços durante a terrível Batalha de Jutlândia. O marinheiro foi um dos milhares de combatentes da I Guerra Mundial submetidos às intervenções cirúrgicas do famoso médico neozelandês Dr. Harold Gillies (1882-1960).

Walter Yeo (1890-1960), marinheiro inglês ferido gravemente na Batalha da Jutlândia, foi a primeira pessoa a ser submetida a uma cirurgia plástica, realizada em 1917 pelo Dr. Harold Gillies. Os horríveis traumas faciais sofridos por milhares de soldados na I Guerra Mundial levaram ao experimento de novos métodos de cirurgia. Comovido com o drama dos combatentes, o Dr. Harold Gillies executou ao longo da guerra mais de 11.000 cirurgias em mais de 5000 homens, ficando conhecido como o pai da cirurgia plástica. Em 1930, o rei Jorge V condecorou-o com o título de 'Sir' Harold Gillies.

Lições da Jutlândia

As reportagens entusiásticas da imprensa alemã após a Batalha da Jutlândia e o comunicado “ingenuamente sincero” dos ingleses citando a perda de 3 cruzadores de batalha e 3 cruzadores encouraçados (com as mais vagas referências aos danos sofridos pelo inimigo), causaram profunda decepção e até mesmo alarma não somente nos países aliados como também nos Estados Unidos, onde já se observava significativo movimento de opinião a favor da guerra. Entretanto, se essa batalha provou alguma coisa, foi apenas a incapacidade da Alemanha para alcançar a superioridade no mar por meio de operações navais, principalmente contra um inimigo que só aceitava a luta em condições impostas por ele próprio. O fato fora admitido até pelo almirante Scheer, cujo relatório subsequente dizia que “nem o mais favorável resultado duma batalha naval fará que os ingleses tomem a iniciativa de pedir paz”. Daí a razão maior dos apelos do comandante alemão pela guerra submarina sem restrições.

De qualquer modo, apesar de se ter mantido inalterada a situação naval após a batalha e de não poder se considerar vitória uma retirada, o é certo que, dum ponto de vista puramente estratégico, os alemães tinham razão para se orgulhar do que haviam conseguido. Combateram contra uma força superior, na proporção aproximada de 8 para 15, e escaparam depois de causar quase o dobro dos danos que sofreram.

No lado inglês, a opinião pública muito questionou a postura deveras defensiva do almirante Jellicoe na batalha. Embora sem cometer erros graves e ter levado a Esquadra de Alto Mar alemã à retirada, o comandante da Grand Fleet não proporcionou a aguardada vitória da magnitude da batalha do Nilo ou Trafalgar.

Winston Churchill tentou enaltecer o aspecto positivo da atuação do almirante dizendo que ele foi o único homem “que podia ter perdido a guerra numa tarde”. Diante da considerável superioridade naval que dispunha, entretanto, o mais correto seria substituir o “podia ter perdido” por “podia ter ganhado”.

Os tempos, porém, eram outros, e a nova política naval britânica não era mais conduzida pelo espírito e pelos métodos de Lord Nelson.



Cartão-postal alemão de 1916, alusivo à Batalha da Jutlândia (Skagerrakschlacht), com destaque para o vice-almirante Reinhard Scheer, comandante da Esquadra de Alto Mar da Marinha Imperial.




Fonte:


STEVENS, W.O & WESTCOTT, A. História do poderio marítimo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1958. O artigo acima é um resumo das páginas 397 a 444, com alguns ajustes e acréscimos.

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